Quando o Yoga e a Religião se cruzam

O Yoga surge dentro de uma cultura, a cultura indiana. Ou seja, o Yoga foi criado dentro de um contexto temporal, filosófico e cultural, dentro do qual evoluiu até à actualidade. O que recebemos hoje, aqui em Portugal é uma exportação de algo que nos é externo e é, inevitavelmente, contemporâneo incluindo uma diversidade de linhagens que espelham a grande quantidade de perspectivas filosóficas em que o Yoga foi evoluindo. O Yoga postural é frequentemente desprovido de filosofia subjacente, mas isso é para outra altura. 

Como em tudo o que é milenar, é difícil estabelecer um linha cronológica clara. Como tudo o que é filosófico, é difícil estabelecer barreiras definidas entre abordagens e pensamentos. No caso da cultura e pensamento indianos, tal como acontece e aconteceu com os filósofos Europeus, a filosofia e religião cruzam-se com muita facilidade e frequência. Nada de errado, ok? 

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Yoga não é nem faz parte de uma religião em si. Nasceu de sábios e pensadores livres e assim foi transmitido dentro da sua tradição de guru/professor para discípulo. Existe uma descrição do entendimento daquilo que é o Mundo e o que o rege, bem como da própria natureza do Humano- pensamento místico e filosófico. Através das práticas, rituais e transmissão de conhecimento pretende-se que o praticante crie uma ligação, se una, se junte a algo - seja uma união interna, com uma divindade externa, ou com uma divindade que tudo permeia inclusive o indivíduo (de forma muuuuiiiiitttooo lata). A abordagem filosófica da prática de Yoga vai variar muito de acordo com a linhagem de pensamento e percepção espiritual de que estivermos a falar e como tal vai definir se tem caráter religioso ou não. Os Vedas, por exemplo, são textos religiosos e todas as linhagens de pensamento que têm como base estes textos tendencialmente serão também elas religiosas. Falo de linhas como Patanjali, Vedanta, Advaita Vedanta e algumas linhas de Tantra, para citar as mais conhecidas por cá - umas monistas (a realidade é constituída por um principio único, um fundamento elementar, sendo que outros seres serão redutíveis em ultima instância a essa unidade) outras dualistas/pluralistas (existência de duas coisas em simultâneo, o divino e a natureza são coisas distintas e irredutíveis entre si). A filosofia subjacente ao estilo de Yoga que praticas será o que te dirá se estás a aderir de alguma forma a uma religião ou não. Para tal, deverás conhecer a filosofia, e procurar informação credível que te ajude a perceber este mundo tão complexo - há muitos estudos académicos internacionais sobre estes assuntos no academia.edu, se quiseres dou-te umas pistas.

Hoje, ou seja, na contemporaneidade, as linhagens são muitas e com a sua exportação ficou ainda mais vasto. Algumas têm base tradicional, que é como quem diz, tem uma filosofia subjacente, outras são meramente posturais. Aquilo que eu quero expor aqui é uma forma simples de inteligires quando estás a praticar uma forma de Yoga que roça ou entra num campo religioso para que faças uma escolha consciente de ficar ou partir e de até onde queres ir dentro dela. Não é o meu lugar afirmar o que é melhor para ti, quero apenas dar-te uma escolha pois isto não é deixado claro o suficiente quando vais praticar com alguém ou numa Escola. Provavelmente, quem lá está nunca pensou nisto para ter qualquer intenção de te enganar… 

Um pormenor importante, nunca te poderás converter ao hinduísmo. É uma religião na qual se nasce. Nascer hindu traz consigo a definição hermética da casta a que pertences e consequentemente uma série de normativas quanto ao que está ao teu alcance fazer ou não, conhecido como dharma. Ao nasceres portugês, não tens casta e, na minha opinião pessoal, é uma coisa boa! Há muita literatura sobre isto, o que mais me marcou foi o romance “O Deus das pequenas coisas” de Arundhati Roi, mas há tanto mais. O Gandhi lutou activamente para a eliminação das mesmas, infelizmente sem grande sucesso, pois o Estado Indiano é laico, mas as castas estão tão presentes hoje quanto no passado. 

Simplificando aqui as coisas, na prática, como é que distingues uma abordagem religiosa ao Yoga de uma não religiosa? Simples, se existem normas, é uma religião. Se existem preceitos, ou seja, directrizes não normativas, não é religião. Mais simples: “tens que fazer isto ou aquilo” é religião. Não tens que fazer, e és livre de escolher fazer ou não, não é religião. Atenção, há quem te diga ambas as coisas… quando há norma e “liberdade”, continua a ser norma. 

Deixo-te uma definição dada pelo Prof. Dr. Raúl Iturra do livro A Religião como Teoria da Reprodução Social (2001) “É como se o homem que tenta entender e gerir a sua heterogeneidade contemporânea, passasse a ser habitado, orientado e dirigido por relações normativas cujo incumprimento tem um preço: a felicidade e a paz ou a infelicidade e a dor.” (Iturra, 2001). Esta construção tem como modelo central a divindade com características como: a eternidade; a sabedoria; a omnipotência; a criação; a ciência; a incorporeidade; e a paciência, amor e entrega incondicional à criatura que faz e quer. A religião assume uma vontade própria e independência da Humanidade que a fabricou “É como se o homem que tenta entender e gerir a sua heterogeneidade contemporânea, passasse a ser habitado, orientado e dirigido por relações normativas cujo incumprimento tem um preço: a felicidade e a paz ou a infelicidade e a dor.” (idem). Repara, até onde o Ser Humano vai para defender aquilo que entende sagrado?

Este texto é um convite à reflexão. Adorava ouvir os teus pensamentos sobre isto.

Diana